if you walk out on me, i'm walking after you


bruna, 32 anos. i am i am i am.

if you walk out on me...
i'm walking after you.

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3.11.14

cresci numa casa bem engraçadinha, onde pairava no ar a ausência mentirosa de machismo e de um conservadorismo tacanho. não existe machismo, mas meu pai sugeriu que minha mãe ficasse em casa para cuidar gente. o mesmo pai que pode fazer o que quiser e sempre vai ser visto como o provedor, mesmo que esse não seja exatamente o papel dele. também acho engraçadinho toda vez me perguntarem sobre o daniel quando eu saio com meus amigos.
uma coisa que sempre me incomodou são as repreensões que eu recebo e meu irmão não. meu barulho incomoda, meus hábitos incomodam, tudo que não esteja de acordo com a vontade do deus-supremo-provedor-da-casa é uma repreensão. eu também não dirijo direito, não posso correr, não posso ser responsável em como exerço meu direito de ir e vir. este último, pelo menos, ainda não cortaram, é coisa de gente civilizada. ou não. o carro que dirijo é mais uma dessas ausências mentirosas de machismo: ando no conforto de um carro, só tenho que levar minha mãe onde ela precisa ir. não é papel do homem ser motorista da mulher. os homens são importantes demais.
amo muito meu irmão, mas ele apreendeu cedo a arte de ser imbecil com as mulheres e nunca recebeu uma repreensão. como se fosse bonito... já eu? será que eu nunca vou dar netos à eles? será que é falta de pulso do meu namorado? porque, poxa, já são quase 10 anos.
devo sempre prestar muita atenção nos perigos do mundo e ponderar bem se devo ou não me jogar. também tem essa: sou arquiteta (profissão de quem não é dondoca suficiente para ser decoradora e nem homem suficiente para ser engenheiro), na prática não entendo tanto assim de construção e de obra, eles entendem!
sempre fui cuidada, supervisionada, repreendida. fico em dúvida se é o resultado de um pensamento tão enraizado que é difícil fazer diferente ou se é intencional, pois toda vez que minha voz incomoda, sou posta no meu lugar de mulher que deve ser submissa. toda vez que sou questionada, na verdade é minha capacidade que está sendo desmerecida. ser cuidada é ser mantida na rédea curta, mas agora está tudo bem, meu namorado cuida de mim. (ele não cuida)
entendo que não é por mal, mas enche o saco. entendo que algumas escolhas da minha mãe foram mais conseqüências que escolhas e quando ela tenta por panos quentes é o jeito dela de manter tudo normal. entendo tudo e não aceito, é assim que funciona na minha família engraçadinha.

bruna | 00:25 | 1 comentários